Por Selma Flavio
A depressão é uma aflição silenciosa que aflige a alma, envolvendo-a em um manto de tristeza, angústia e desesperança. Esta dor não pode ser vista, tocada ou facilmente nomeada, mas é uma realidade que está presente, oculta nas profundezas de quem a enfrenta. Ela se infiltra sorrateiramente, como uma voz sussurrando ao ouvido, uma sombra que paira e um medo sem razão aparente. Os sintomas muitas vezes demoram a ser percebidos, afetando pessoas de todas as idades, desde crianças até idosos. Quando finalmente reconhecida, a depressão já pode ter se instalado e começado a corroer tanto a saúde física quanto a mental do indivíduo. Algumas pessoas tentam anestesiar essa dor com álcool, drogas, festas ou jogos, buscando uma maneira de fugir do vazio que as consome, enquanto outras se afundam cada vez mais na melancolia.
“Que ninguém te faça duvidar, cuida da tua ‘raridade’ como a flor mais preciosa da tua árvore.”
– Bert Hellinger
O que muitos não percebem é que esse vazio faz parte de um sistema familiar mais amplo, sendo, na verdade, um sintoma desse sistema. Essa escuridão, frieza e sensação de vazio são como uma assombração que arrepia a pele, acionada por gatilhos – lembranças conscientes ou não, algo que nos leva de volta a um momento doloroso. A depressão enfraquece gradualmente o corpo, drena as energias e deixa pouco espaço para escapar desse redemoinho de sombras.
Infelizmente, ainda existem aqueles que consideram a depressão como frescura, sem compreender sua natureza séria e a necessidade de cuidados adequados. Precisamos urgentemente de uma nova perspectiva, para que as pessoas não se afundem nas areias movediças dessa doença. Podemos chamá-la de trevas, da escuridão da alma, mas como podemos trazer luz a essa escuridão? É um desafio complexo, mas, na maioria das vezes, a resposta está intrinsecamente ligada a questões não resolvidas em nossas vidas, como perdas de entes queridos, abortos espontâneos, natimortos e outras experiências dolorosas. Esses eventos se entrelaçam nas histórias familiares e muitas vezes se repetem, como se a vida tentasse reescrever uma narrativa incompleta.
A Jornada da Cura
Para iniciar o processo de libertação, é crucial compreender por que nos identificamos com essa escuridão, quem ou o que estamos realmente observando quando olhamos para dentro de nós mesmos. É uma jornada que exige humildade, a capacidade de reconhecer que aquilo que carregamos não nos pertence. Precisamos compreender que somos pequenos diante de nossos pais, que eles são os guardiões de suas próprias histórias e que não cabe a nós julgarmos. Somente através da humildade podemos entender que a vida soprou em nossas narinas porque nossos pais existiram antes de nós, e foi necessário um momento de desarmamento para que pudéssemos nascer. Não somos superiores a eles, não temos o poder de carregar o fardo do passado em seus lugares. Uma alma arrogante acredita que pode, mas isso apenas a levará à doença.
A frase bíblica “deixe que os mortos enterrem seus mortos” nos alerta sobre a importância de permitir que os mortos descansem em paz. A depressão muitas vezes está ligada à tentativa de cuidar das feridas do passado da família. Portanto, é fundamental encontrar a coragem e a humildade para deixá-los seguir seu próprio caminho e liberar essas amarras.
Concluindo
A jornada de libertação da depressão é uma busca pela luz na escuridão da alma. Ela começa com a compreensão de que não somos os guardiões das dores e traumas de nossa família, mas sim pequenos participantes em uma história maior. A humildade é a chave para a libertação, pois nos permite deixar ir o que não nos pertence e encontrar paz ao invés de carregar um fardo que não é nosso.
Portanto, é hora de desmistificar a depressão, reconhecendo-a como a doença séria que é e oferecendo o apoio necessário àqueles que lutam contra ela. É hora de trazer luz à escuridão da alma, abraçando a jornada de liberdade com compreensão, empatia e humildade. Somente então poderemos ajudar a aliviar o sofrimento de tantas pessoas que enfrentam essa batalha silenciosa.
“Não olhe apenas para as dores, olhe também para as alegrias. De teus antepassados.” -Bert Hellinger
Por Selma Flavio, Especialista em Saúde Mental e Relações Familiares.





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